Resumo
Neste trabalho, busca-se discutir e entender os conceitos de permacultura e sustentabilidade na arquitetura e urbanismo, a partir de pesquisa bibliográfica sobre alternativas sustentáveis de construção. A metodologia apresenta soluções viáveis para a prática arquitetônica permeando técnicas e métodos de bioconstrução. Baseados nestes conceitos, os arquitetos e bioconstrutores do Projeto ArqViva, realizaram, com a participação de colaboradores, voluntários e moradores, o projeto arquitetônico e o início da construção de uma creche na ocupação urbana Alto da Boa Vista, em Aparecida de Goiânia – GO. Os resultados evidenciam a importância do retorno às práticas vernaculares como alternativa sustentável de construção e os benefícios revertidos à comunidade.
Palavras-chave: Sustentabilidade; Permacultura; Bioconstrução; Soluções
Abstract
Em inglês, na mesma formatação e tamanho do resumo, e em itálico.
Keywords: Sustainability; Permaculture; Bioconstruction; Solutions
- Introdução
Há maneiras de suprir as necessidades humanas em harmonia com o meio habitado, técnicas antigas de construir são possibilidades contemporâneas, assim, a permacultura e a bioconstrução expressam modos diferenciados e necessários de lidar com espaços, havendo desenvolvimento mais saudável na relação entre o homem e o meio ambiente.
Diante de desafios urbanos, a sociedade precisa ter uma preocupação educativa, buscar soluções para problemas como déficit habitacional, desemprego, falta de oportunidades, degradações ambientais e sociais. Neste sentido, Rolnik (1998), questiona se diante das gigantescas metrópoles contemporâneas, seria possível definir a cidade. Esta poderia ser um ambiente de transformações, conciliando as esferas social, econômica e ambiental, sendo um laboratório de novas iniciativas sustentáveis.
A abordagem do tema nesta pesquisa está fundamentada na urgência de se criar soluções mais sustentáveis como estratégia para a mitigação dos problemas oriundos da crise ambiental, para garantir qualidade de vida às futuras gerações e equilíbrio aos ecossistemas. Pois entende-se que a permacultura surge com a proposta de atrelar a necessidade humana de habitação às necessidades de renovação dos sistemas ecológicos, visando um conjunto de ações efetivas, deliberadas e antecipadas que objetivam a redução de impactos (PINHEIRO; DINIZ, 2022). O estilo de vida permacultural envolve uma experiência de habitação de caráter pró-ecológico voltado para a sustentabilidade. Há desafios e resistências quanto às formas de bioconstrução e estruturação de espaços permaculturais, e as pessoas participantes se veem como vitrine, proporcionando experiências tocantes e inspiradoras para despertar o cuidado ambiental (PINHEIRO; DINIZ, 2022).
Esta pesquisa também foi motivada a partir de visita feita ao Ecocentro, sede do Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado – IPEC, uma organização não governamental fundada em 1998 e localizada em Pirenópolis – GO, esta entidade atua com a finalidade de estabelecer soluções apropriadas para problemas na sociedade, promovendo a viabilidade de uma cultura sustentável, e oportuniza experiências educativas, por meio de cursos e dissemina modelos de desenvolvimento ecológico no cerrado e no Brasil, com habitações ecológicas, exemplos de manejo de águas, energia renovável, saneamento ecológico, agroflorestas e outros processos de sustentabilidade.
Deste modo, pretende-se aqui conceituar, como revisão bibliográfica, a permacultura com seus valores e princípios éticos; as comunidades das Ecovilas, a fim de idealizar, relativamente ou parcialmente sustentáveis, as problemáticas sociais recorrentes ao desenvolvimento congruente entre homem/natureza; arelação da permacultura com a arquitetura. Na metodologia serão apresentadas algumas técnicas e métodos de bioconstrução, bem como os resultados experimentados durante a execução de práticas arquitetônicas do Projeto ArqViva – uma iniciativa modelo baseada nos preceitos da permacultura, bioconstrução e sustentabilidade.
- Permacultura: cultura permanente
A Permacultura é uma expressão originada do inglês “Permanent Agriculture” e foi criada por Bill Mollison e David Holmgren na década de 1970. A palavra é formada pela união de “permanente” e “cultura” (DOS SANTOS, VENTURI e NANNI, 2022), o que explica como é importante para a humanidade, já que essa filosofia de vida considera fundamental o equilíbrio entre os ecossistemas e o respeito ao próximo e ao ambiente. Atualmente, esse termo transpõe desde a leitura paisagística, da compreensão ecológica, do uso de energias e do bem manejar os bens naturais, visando principalmente criar e planejar ambientes humanos sustentáveis e produtivos em equilíbrio com a natureza, tendo em vista a permanência humana como espécie em plena evolução na terra, obedecendo seus princípios de planejamento e suas éticas.
Estudiosos da permacultura pontuam que existem três éticas a serem seguidas para o devido cumprimento de seus princípios organizacionais, são elas: cuidar da terra; cuidar das pessoas; cuidar do futuro (DIXON, 2014; HARLAND, 2018; MCKENZIE e LEMOS, 2008), incentivando limites ao crescimento e ao consumo (MOLLISON, 1998) e a partilha justa (HOLMGREN, 2013).
A partir disto, consegue-se compreender os doze conceitos de planejamento permaculturais, sendo que os seis primeiros consideram os sistemas de produção sob uma perspectiva crescente dos elementos, organismos e seres humanos, e os demais em ordem inversa sob perspectiva decrescente dos padrões e relações emergentes através da coevolução dos ecossistemas e sua auto-organização. Conforme Holmgren (2013), são eles: 1 – observe e interaja; 2 – capte e armazene a energia; 3 – obtenha um rendimento; 4 – pratique a autorregulação e aceite retorno; 5 – use e valorize os serviços e recursos renováveis; 6 – produza e não desperdice; 7 – desenhe partindo de padrões para chegar a detalhes; 8 – integre ao invés de segregar; 9 – use soluções pequenas e lentas; 10 – use e valorize a diversidade; 11 – utilize caminhos paralelos e ideias criativas e 12 – responda à mudança com criatividade. Desta forma, entende-se então que,
[a] permacultura consiste na elaboração, implantação e manutenção de ecossistemas produtivos que mantenham a diversidade, a resistência e a estabilidade dos ecossistemas naturais, promovendo energia, moradia e alimentação humana de forma harmoniosa com o ambiente (MOLLISON e SLAY, 1998).
O consumo produz o crescimento econômico e as pessoas precisam da produção de bens para satisfação de suas necessidades. No entanto, o modo como utilizam os recursos disponíveis está causando uma crise, já que são finitos. Os alimentos podem ser produzidos sem pesticidas, por exemplo, pois prejudicam os consumidores, a terra e a biodiversidade. Uma das bases da permacultura é exatamente a reciclagem de materiais, o uso de energia limpa, o reaproveitamento, a captação da água da chuva, entre outros processos.
Joseph (2023), manifesta que a função ecológica aprimorada em paisagens públicas é vital para a saúde dos moradores da cidade. Neste aspecto, Verni (2023), expressa uma experiência sobre implantar um novo modelo de instituição, destinada a idosos de baixa renda na cidade de Birigui, a fim de suprir carências físicas, afetivas e psicológicas, um modelo baseado em preceitos permaculturais, procurando desenvolver um ambiente comunitário, solidário e sustentável em harmonia com a natureza, através de conceitos como a sustentabilidade, agroecologia e bioconstrução.
A permacultura concede soluções inteligentes para a qualidade de vida relacionada às construções, práticas socioambientais, otimização do que se extrai e o que pode ser reaproveitado, tendo a incorporação de tecnologias verdes e atenção aos recursos.
- Permacultura na arquitetura e urbanismo
Com o passar dos anos, a permacultura passou a englobar o planejamento de sistemas em escala mais humana, como casas, jardins, vilas e comunidades (TAGLIANI, 2017).
A arquitetura é um dos principais temas no que tange à sustentabilidade, tendo em vista a escassez de recursos naturais, a poluição do meio ambiente pelos processos industriais e construtivos, a geração de resíduos não degradáveis pela construção civil, e sobretudo os impactos sobre a vida humana e a natureza de forma não consciente. Embora o século XXI seja marcado pela chamada arquitetura verde, empregando nas edificações sistemas sustentáveis de alta tecnologia, nota-se que muitos desses sistemas estão vinculados a pesados processos industriais, ainda utilizando materiais não ecológicos e ocasionando impactos consideráveis no meio ambiente, sendo que em sua maioria, a implantação de tais tecnologias depende de grandes investimentos financeiros, restringindo-se a grandes edificações corporativas, comerciais e industriais (MAURICIO; ARAUJO, 2016).
Holmgren (2013), defende que “… ao tomar um tempo para se envolver com a natureza, podemos projetar soluções que se adequem à nossa situação particular.” e, para Mollison (1998), ao envolvimento da arquitetura caberia a
(…) elaboração, implantação e manutenção de ecossistemas produtivos que mantenham a diversidade, a resistência, e a estabilidade dos ecossistemas naturais, promovendo energia, moradia e alimentação humana de forma harmoniosa com o ambiente (MOLLISON, 1998).
Segundo Tagliani (2017), a permacultura destina à arquitetura, a utilização de métodos ecológicos, econômicos, que respondam às necessidades básicas dos seres humanos, com emprego de mão de obra local, que não prejudiquem o meio ambiente e que se tornem autossuficientes em longo prazo. Exemplos disso são os materiais e/ou sistemas construtivos feitos com matéria-prima reciclada ou retirados do local da própria obra, as chamadas técnicas construtivas verdes. Alguns princípios da permacultura para a arquitetura são: (a) Criação e coordenação de projetos que visem um futuro mais sustentável; (b) Obtenção de recursos próprios; (c) Autonomia e uso de sistemas não poluentes e renováveis; (d) Redução de resíduos sólidos; (d) Renovação do ecossistema hídrico e tratamento de efluentes; (e) Valorização da diversidade; e (f) Aceitação e adequação às mudanças.
Os permacultores propagam técnicas como a bioconstrução, que se baseia em construir de modo menos agressivo ao meio ambiente através de conhecimento técnico ancestral. Gonçalves (2022), complementa que atualmente a bioconstrução tem se mostrado um instrumento de grande potencial na área da arquitetura, oferecendo um método construtivo para tratar dos cenários, ambiental e coletivo, com responsabilidade e sustentabilidade, possibilitando um plano mais sustentável e promovendo o desenvolvimento humano.
- 3.1.As Ecovilas
As Ecovilas são pequenos bairros urbanos (XHEXHI, 2023). Um mundo com padrões diferentes ao vigente no que diz respeito à sustentabilidade, assunto de extrema relevância em nossa civilização contemporânea. Comunidades intencionais são compostas por pessoas que optam por viver juntas ou próximas e que compartilham um estilo de vida com objetivos comuns. Assim, o que integra os grupos intencionais é a escolha do estilo de vida e não simplesmente o compartilhamento no mesmo espaço. As atuais manifestações comunitárias são nomeadas de Ecovilas, adotando uma forma de vida sustentável, elas são vistas como comunidades intencionais que procuram atender o jeito de vida de seus componentes, e, ao mesmo tempo, respeitar as dimensões da sustentabilidade em suas diversas apresentações, tais como, econômica, social, cultural, política, e ambiental (MORAIS; DONAIRE, 2019).
Em Goiás existe o Ecocentro, sede do Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado (Figura 1). Desenvolvidas em solo de cerrado, as ideias de permacultura estão presentes nos projetos de energia renovável, habitações ecológicas, educação ambiental, compostagem, biofertilizantes e saneamento responsável. A terra, integrada com as pessoas e o ambiente, se beneficia de sistemas que evitam o desperdício. A captação de água da chuva, a gestão de resíduos, a aquicultura, a hidrologia são técnicas que, usadas da forma correta, desenvolvem as comunidades.
Figura 1: Edifício do Ecocentro IPEC. Fonte: http://www.ecocentro.org/
Na cidade de Ubatuba, litoral de São Paulo, existe o Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica – IPEMA, juntamente com o Instituto Neos (Figura 2), fundado em 1999, capacita pessoas para áreas de ecovilas e bioconstrução, realizando cursos sobre bioconstrução, agrofloresta, sistemas social e financeiro, energia renovável, leitura de paisagem, com soluções criativas para resolver problemas sociais.(Fonte e ano)
Figura 2: Uma das instalações do Instituto Neos. Fonte: https://www.ipemabrasil.org.br/pdc2023.
De várias partes do mundo (México, Ucrânia, Portugal, Holanda e Brasil), outro grupo de pessoas se conheceram e juntas fundaram a Ecovila Tibá (Instituto de Tecnologias Intuitivas e Bio-arquitetura), no Rio de Janeiro, em 1987. A Figura 3, apresenta uma cobertura de jardim vertical sendo montada sobre uma abóbada de adobes. Desde 2012, a equipe recebeu o nome de Lowconstrutores Descalzos, realizando cursos, vivências e projetos que envolvem construção natural, arquitetura orgânica e educação ambiental. A iniciativa é inspirada nos conceitos-chave da bioconstrução. “Lowconstrutores” tem relação com o conceito de baixo impacto ambiental dos projetos, enquanto descalzo é uma referência ao livro Manual do Arquiteto Descalço, do holandês Johan Van Lengen, mestre do grupo e fundador do Tibá (TORRES, 2019).
Figura 3: Cobertura de jardim vertical, Instituto Tibá. Fonte: https://www.tibario.com/projetos.
Além do forte ativismo ecológico, as práticas adotadas nesses assentamentos passam pela produção orgânica, uso de fontes de energia renováveis, adoção de construções de baixo impacto ambiental, a prática da economia solidária e cooperativismo, preservação do ecossistema, sistema de apoio social e familiar, incentivo à diversidade cultural e espiritual.
- O Projeto ArqViva
Com a notoriedade do termo sustentabilidade, bem como com a difusão das técnicas construtivas sendo vistas, cada vez mais, como uma forma de pensar a prática arquitetônica, conectada à necessária ressignificação do estilo de vida do homem contemporâneo para sobrevivência das futuras gerações em um planeta saudável, é que surgiu a ideia do Projeto ArqViva. Foi idealizado pelo grupo Ideias Urbanas, este fundado em 2016, em Goiânia – GO, com o objetivo de divulgar os preceitos da arquitetura sustentável, a partir da promoção de ações comunitárias promovendo cursos e capacitações, troca de conhecimentos e vivências, arrecadação de alimentos, doações, etc.
O Projeto ArqViva surgiu em setembro de 2022, inspirado no conhecimento ecológico voltado à criação de construções sustentáveis e em harmonia com o ambiente. Assim, propõe o desenvolvimento de soluções criativas utilizando técnicas e métodos de bioconstrução. Sua realização visa proporcionar ao público o contato direto com as tecnologias da bioconstrução, expondo à sociedade os benefícios da permacultura, dos sistemas construtivos inovadores, sua viabilidade econômica e executiva, e ainda, desmistificar a linguagem de arquitetura vernacular associada à bioconstrução através da capacitação dos moradores e formação de novos profissionais bioconstrutores.
As atividades do grupo Ideias Urbanas e do Projeto ArqViva podem ser acompanhadas pelo Instagram em @projetoarqviva, @ideias.urbanas.
- 4.1.Área de execução do projeto
O local de intervenção escolhido foi o da comunidade Alto da Boa Vista (Figura 4a), uma ocupação urbana localizada em Aparecida de Goiânia – GO, para a reforma e construção de uma creche, a Creche Assembléia das Crianças (Figura 4b), utilizando-se técnicas de bioconstrução como tijolo de adobe, taipa de mão e reboco natural, por meio de cursos práticos de capacitação e mutirão.
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Figura 4: (a) Localização da ocupação Alto da Boa Vista; (b) Creche Assembléia das Crianças. Rua Olga Benario, Vila Delfiori, Aparecida de Goiânia – GO). Fonte: © Google maps (2023)
A ocupação ainda não foi regularizada e sua expansão provocou impactos ambientais, como poluição do solo e do lençol freático, possui construções irregulares, insalubres e não possui saneamento básico. São 740 famílias de extrema vulnerabilidade econômica e social. A Figura 5 mostra os colaboradores que participaram das obras de construção da creche.
Figura 5: Colaboradores da comunidade nas obras da creche. Fonte: elaborado pelos autores.
- Programa de necessidades e estudos preliminares
Empregando os princípios da permacultura e da bioconstrução foram priorizadas as relações entre os moradores e a natureza, sempre supervisionados pelos responsáveis técnicos, os arquitetos e bioconstrutores. Com oficinas de aprendizado e capacitação, os moradores e colaboradores auxiliaram na execução da construção e aprenderam novos ofícios. As Figuras 6a, 6b e 6c demonstram a participação da comunidade nas discussões do projeto.
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Figura 6: (a) Comunidade Alto da Boa Vista, (b) Vista aérea, (c) Vista da Creche Assembléia das Crianças. Fonte: elaborado pelos autores.
Foram observados os anseios e necessidades da comunidade para a creche, resultando em uma construção de aproximadamente 62m², onde estão previstos os seguintes ambientes: bercários, fraldário, banheiros infantis, banheiros para adultos, salas de aula, cozinha e refeitório. Após a fase dos estudos, chegou-se ao projeto de arquitetura e as obras estão em andamento com previsão de finalização para maio de 2023.
- Materiais e técnicas de bioconstrução
Os materiais de construção e as matérias-primas foram basicamente água e argila, adquiridos no próprio local e entorno, para diminuir o custo com transporte, reduzindo-se assim o custo ambiental. Outros insumos, como pallets de madeira e varas de bambu, foram adquiridos por meio de doação ou reaproveitados. Entre as técnicas empregadas estão a taipa de mão, quincha peruana, pallet a pique, adobe e reboco natural, descritos a seguir.
Taipa de mão: sistema de vedação tendo como princípio básico o uso de terra crua associada a uma estrutura em madeira para a formar as paredes de uma edificação. Neste caso utilizou-se o pallet a pique, uma variação da taipa de mão, juntamente com a técnica da quinha peruana, outra técnica de bioconstrução para construção de paredes que utiliza o bambu em sua estrutura, sendo revestida por barro e palha. As Figuras 10a e 10b mostram uma parede da edificação sendo executada por colaboradores.
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Figura 10: (a) Quincha peruana, (b) Pallet a pique. Tipos de taipa de mão sendo executadas de modo coletivo. Fonte: elaborado pelos autores.
Adobe: tijolo de terra e fibras vegetais misturados com água, moldados e secos ao ar livre (sem queima). Foram utilizados fibras de palhas, braquiária e esterco de vaca nos adobes.
Antes da confecção dos blocos de adobe foram feitos testes de resistência e decantação com a terra (Figuras 11a, 11b e 11c), observando-se o índice de argila do solo e a coesão entre as partículas, para que assim, fossem dosadas as quantidades de fibras a serem adicionadas.
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Figura 11: (a) Teste de decantação, (b) Secagem do adobe, (c) Adobe aplicado. Fonte: elaborado pelos autores.
Reboco natural: técnica de bioconstrução utilizada no acabamento e revestimento de paredes. É basicamente uma mistura de terra, argila e cal a espessantes ou ligantes naturais, como esterco, óleo de linhaça ou óleo de milho (Figura X).
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Figura 12: (a) Reboco grosso, (b) Reboco fino, (c) Acabamento. Fonte: elaborado pelos autores.
Figura 13: Creche sendo executada com técnicas bioconstrutivas. Fonte: elaborado pelos autores.
- Considerações finais
A adoção de estratégias e técnicas que observa o fluxo dos sistemas naturais no próprio ambiente, pode ser uma maneira adequada de se viver dentro dos limites ecológicos e ao mesmo tempo cooperando para a redução e mitigação dos impactos ambientais, otimizando os recursos financeiros e contribuindo para a conservação ambiental e melhoria da qualidade de vida dos usuários.
O projeto e a execução da creche da ocupação urbana Alto da Boa Vista estão sendo desenvolvidos, integrando todas as etapas da construção entre os profissionais (técnicos e colaboradores) e a comunidade, para que assim, todos participem e contribuam no desenvolvimento do processo construtivo. Foram utilizadas soluções inspiradas no conhecimento ecológico para a criação de construções saudáveis em harmonia com o ambiente adotando materiais oferecidos pela natureza e com aproveitamento de matérias-primas residuais ou não.
É desafiante para o construtor ou arquiteto contemporâneo conciliar renda e assistência técnica às pessoas necessitadas. Constatou-se que esta ação coletiva envolvendo uma construção significativa, edificada com ensino de arquitetura na prática, contato com a terra e materiais locais, trabalho em grupo, troca de aprendizados no momento construtivo beneficiam a formação de vínculos, efeitos benéficos no humor e nas sensações.
O tempo de execução da obra foi reduzido com cada voluntário contribuindo em alguma parte dela, aliando o ato de aprender e ajudar. A creche foi construída com diálogos, música, educação ambiental, reciclagem e otimização de recursos, possui uma atmosfera diferenciada, sendo uma bioconstrução feita com união e fraternidade, capacitando e inspirando atitudes.
Tendo em vista os objetivos deste trabalho no sentido de refletir sobre permacultura, ampliar e difundir conhecimento, aprendendo técnicas de bioconstrução, pode-se dizer que foram em parte atendidos, o aperfeiçoamento é contínuo e espera-se que hajam futuras pesquisas inspiradas neste tema. É preciso ter respeito pela terra e pela natureza, para que haja uma verdadeira revolução na organização social e na interação com o meio ambiente.
- Referências
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